10/10/2009 12:00 am

Uma teoria para a transformação

Uma teoria para a transformação

capa siteEm entrevista para o Blog da Boitempo, Carlos Eduardo Martins fala sobre a obra de Ruy Mauro Marini, a crise do neoliberalismo, a necessidade de práticas transformadoras e os desafios colocados para os marxistas no próximo período. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, Carlos Eduardo é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na próxima quinta-feira, 01/10, participa de debate no II Simpósio de Teoria Política do IFCS, às 17h, na UFRJ, onde lança a obra A América Latina e os desafios da globalização: ensaios dedicados a Ruy Mauro Marini.

 

1) A aliança entre teoria e prática é essencial para os pensadores marxistas? Como a militância de Ruy Mauro Marini contribuiu com a sua obra? O período do exílio no Chile foi determinante neste sentido?

O marxismo, tal como pensado por Marx e Engels, não se contentava apenas em conhecer o mundo, mas pretendia transformá-lo, libertando a humanidade das opressões de classe que o constituíam. Só assim se realizaria plenamente a potencialidade criadora do homem. Este é o grande objetivo e o sentido mais profundo de sua obra. Mas realizá-lo requer o estudo dos processos de dominação, de suas contradições, das condições objetivas. Isto permite desenvolver a luta política como simultaneamente prática e teórica, sem o que, não poderá atingir esta finalidade. A relação entre teoria e prática, ainda que intensa, requer, portanto, uma autonomia relativa entre ambas. Não é por outra razão que entre as principais obras de Marx estão O Capital, a Crítica da Economia Política, A Ideologia Alemã e os Grudrisse. Marini foi um intelectual desse tipo. Militante socialista, concebia a atividade intelectual com a autonomia relativa necessária para conferir à atividade política, mais que um sentido imediato, a longa duração das grandes linhas do pensamento estratégico. Para isso constrói uma economia política da dependência, cujo paradigma é seu livro Dialética da Dependência. Marini foi liderança destacada da POLOP no Brasil, de onde saiu para o exílio em 1965, após ser torturado no CENIMAR, e do MIR chileno. Na POLOP desenvolveu com Theotonio dos Santos e Vânia Bambirra a crítica às teses do PCB de uma revolução democrático-burguesa, comandada pela burguesia industrial brasileira contra o latifúndio e o imperialismo, apoiada por trabalhadores e camponeses. Estas críticas, embrião da teoria marxista da dependência, formuladas juntas com Andre Gunder Frank na UNB, onde estes autores se reúnem em 1963/64, serão plenamente desenvolvida no Chile no CESO, Centro de Estudos Sócio-Econômicos. No MIR chileno, o autor realizou a crítica ao projeto político da Unidade Popular, que tentou circunscrever a dualidade de poderes ao interior do Estado, restringindo a organização das classes trabalhadoras e sua capacidade de confrontar a desestabilização do governo Allende pelo grande capital e sua base social. Estes materiais foram reunidos em seu livro, Reformismo e a contra-revolução: estudos sobre o Chile. No exílio mexicano aprofunda os seus estudos sobre o capitalismo dependente, escrevendo vários artigos que avançam a perspectiva traçada em Dialética da dependência, e preocupa-se com os rumos tomados pela redemocratização na América Latina, hegemonizado pelo grande capital. De volta ao Brasil, não se vinculou a nenhuma organização partidária, inclinando-se politicamente pela formação de uma frente de esquerda entre o PDT, liderado por Brizola, e o PT.

 2) O autor é considerado um pilar da construção do pensamento marxista não só no Brasil, mas em toda a América Latina. O legado de Marini, entretanto, é pouco conhecido no País. Que fatores podem explicar esse paradoxo? Há uma motivação política?

 Creio que podemos apontar três razões para este desconhecimento. A primeira o fato de Marini ter desenvolvido grande parte de sua obra fora do Brasil, em razão do exílio. A ditadura brasileira interveio na universidade e buscou redirecionar suas conexões e sua problemática, reorientando-a da América Latina e Europa para os Estados Unidos. A segunda razão foi que esta reorientação em direção aos Estados Unidos foi acentuada pela atuação da Fundação Ford no país, nos anos 1970 e 80. Buscava-se explicitamente a formação de uma nova comunidade acadêmica, não comprometida diretamente com o autoritarismo, e capaz de gerir o capitalismo brasileiro de forma segura em tempos de redemocratização. Para isso foi fundamental a difusão do pensamento analítico e o financiamento de centros de pós-graduação e associações especializadas, o que deslocou as grandes questões nacionais e internacionais, por natureza transdisciplinares, da condição de objeto de estudo. Finalmente a obra de Marini denunciava, na superexploração, os limites dos modelos políticos de desenvolvimento liberais ou neoconservadores tomados pelo capitalismo brasileiro, desde o fim da ditadura, o que a tornava incomoda para neodesenvolvimentistas e neoliberais, que preferiram silenciá-la ao invés de a integrarem na batalha das idéias.

 3) No marco da malha conceitual da teoria da dependência qual papel o Brasil tem desenvolvido na América Latina?  Que entraves há para uma integração maior? O que os governos progressistas recém eleitos estão fazendo concretamente neste sentido?

Vivemos um período de crise da hegemonia dos Estados Unidos e crise estrutural do capitalismo na economia mundial. Isto abre muito espaços para os países periféricos, sobretudo os de dimensões semi-continentais como o Brasil. As taxas de investimento nos países centrais são limitadas e há uma grande dificuldade para transformar a revolução científico-técnica numa realidade social e civilizatória, capaz de estabelecer as bases de uma nova divisão internacional do trabalho. O trabalhador se torna o principal ativo econômico e o aumento do valor de sua força de trabalho passa a ser o fundamento da produtividade, o que entra em contradição com a dinâmica do capital. O Estado volta a ganhar importância, como organizador do dinamismo da economia. A possibilidade estrutural de construção de um mundo multipolar ganha evidências crescentes, mas para que se realize é necessária a mediação da política. Os BRICAS, incluindo-se a África do Sul, devem assumir posições mais ousadas  no movimento de reorganização da economia mundial. A formação de um bloco histórico que impulsione a integração regional na América Latina e dos países do sul torna-se uma prioridade para os próximos 20 anos. O Brasil detém a maior parte da população, das reservas monetárias, do desenvolvimento científico-tecnológico e da base industrial da sul-americanas, possuindo ainda substanciais reservas minerais e patrimônio biótico. O alcance da UNASUL e da integração regional depende amplamente de o Brasil abandonar as pretensões de se diferenciar como país semi-periferico, liquidando os compromissos subimperialistas e a superexploração de suas oligarquias, para assumir os compromissos sociais e políticos de uma América Latina solidária e articulada às forças emergentes do mundo atual.

  4) Ao organizar a obra A América Latina e os desafios da globalização, que legado deixado pela vida e obra de Marini você e os outros organizadores da obra esperavam resgatar? Quais as principais contribuições para o pensamento marxista contemporâneo?

Nossa intenção foi resgatar a obra de Marini não apenas como uma referência histórica do pensamento brasileiro e latino-americano, mas como um instrumento para a compreensão do capitalismo contemporâneo. Nesse sentido nos propusemos fazer um balanço teórico e empírico de suas teses a luz da globalização da economia mundial. O conceito de superexploração, por exemplo, é de grande fecundidade para a interpretação de sua dinâmica, e um dos principais legados de sua obra. Continua extremamente válido para a análise dos processos de exclusão na América Latina tornando-se mesmo, com a globalização, aplicável aos países centrais. Para o autor, a desigualdade e a pobreza latino-americanas apresentam fortes componentes estruturais. As nossas burguesias inserem-se de forma subordinada e associada numa economia mundial monopólica e hierarquizada constituída pelo capitalismo mundial, e dirigida por seus grandes centros.  As transferências de mais-valia de nossas formações sociais para a economia mundial se combinam às internas, que beneficiam o setor monopólico local, associado ao grande capital, em vantagem tecnológica, financeira e comercial. A necessidade de o capital médio restabelecer suas taxas de lucro – uma vez que sob condições monopólicas situa-se por debaixo das condições médias de produção – cria um mercado de trabalho que passa a gravitar em torno à superexploração. Esta se desenvolve pelo aumento da jornada e da intensidade de trabalho sem a remuneração equivalente, pela rebaixa salarial, ou pelo aumento da qualificação do trabalhador, sem o pagamento correspondente. Não é por outra razão que os 10% mais ricos do Brasil detém 75% de nossas riquezas, ou que os 10% mais ricos na América Latina 46% de nossas rendas. Esta é a raiz do caráter anti-democrático e oligárquico de nossas burguesias a qualquer processo político carregado de um conteúdo social mais substantivo, ou que ameace configurá-lo. O ódio aos Chávez, aos Evos Morales, aos Lugos, aos Zelayas, aos Kirchners e aos Lulas tem esta natureza.

Nos seus trabalhos mais recentes, Marini assinala que a superexploração se estende aos países centrais em função da reorganização produtiva proporcionada pela globalização e dos novos níveis de monopolização alcançados pela economia mundial. O monopólio deixa de ser uma realidade nacional ou multinacional para se transformar em trasnacional. Os seus resultados são as transferências de mais-valia das empresas de base estritamente nacional, mesmo dos países centrais, para estas grandes corporações, e a pressão daquelas para compensá-las sobre os salários dos trabalhadores. Os dados proporcionados pelo Economic Report of The President para a economia estadunidense, não deixam dúvidas quanto a isto. Os salários dos trabalhadores são hoje inferiores aos de fins da década de 1960.

Outros conceitos de sua economia política, como o de subimperialismo, permanecem relevantes, e são trazidos à cena contemporânea nas denuncias realizada pelos governos populares que emergiram na região, da presença brasileira na América do Sul nas últimas décadas, sendo tomados em consideração pelo governo Lula e sua política externa para o redesenho de nossa inserção internacional.

Finalmente de grande atualidade é sua compreensão da teoria da dependência como parte da teoria de um sistema mundial que deveria culminar em novo socialismo no século XXI: de caráter mundial e radicalmente democrático, realizando desafios civilizatórios que nem o capitalismo e nem o socialismo do século XX foram capazes de cumprir.

 5) Na apresentação da obra, você diz que a crise de legitimidade do neoliberalismo potencializa a abertura de novos espaços. Você poderia identificar algumas brechas para os intelectuais, militantes e movimentos sociais de esquerda neste sentido?

Penso que a crise do neoliberalismo despertou uma sensibilidade crítica da população às políticas desenvolvidas nos últimos anos. É esta sensibilidade que deu a vitória com 60-65% dos votos aos governos populares da região. Entretanto, para que ela se desenvolva é preciso que estes lancem na agenda política da população temas mobilizadores. Não fazê-lo pode significar a perda de um momento histórico precioso para a emancipação dos povos latino-americanos.

Por Débora Prado (assessora de imprensa)

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