29/08/2012 12:00 am

Sem moradia, 94 famílias denunciam descaso da Prefeitura de SP

Sem moradia, 94 famílias denunciam descaso da Prefeitura de SP

 

“São Paulo sofre retrocesso e quem paga a conta são os mais pobres. Sempre foi assim”, relatou à reportagem do Portal Vermelho Carmem da Silva Ferreira, liderança do MST e que também compõe a Frente de Luta por Moradia (FLM), ao falar sobre a situação das 94 famílias que estão alojadas ao lado do prédio dos Correios, na Avenida São João, no centro de São Paulo.

 

Joanne Mota, do Portal Vermelho em São Paulo

Após ordem judicial, executada na última terça-feira (28), as famílias que ocupavam prédio abandonado há cinco anos, na Avenida Ipiranga, 908, no centro da cidade de São Paulo, foram despejadas. Estas 94 famílias não têm para onde ir e estão dependendo da solidariedade das pessoas.

Carmem da Silva Ferreira, que luta por moradia em São Paulo há 20 anos, disse à nossa reportagem que as famílias que estão acampadas vêm, desde 2009, lutando por um teto e esta não é a primeira vez que estas pessoas são despejadas. “Nossa luta começou na região de Alto Alegre, localizada na Zona Leste de São Paulo, lá ocorreu o primeiro despejo via ação judicial. Nossa história é de luta por moradia, por uma vida mais humana, e o governo só responde com quebra de acordo, com jogo de empurra, nunca cumpriram com o acordado”, denunciou.

 

Segundo ela, cansados do descaso, em novembro de 2011, as famílias ocuparam vários prédios simultâneos e o da Avenida Ipiranga, 908, foi um deles. “Após nove meses da desocupação, veio uma determinação judicial para que o governo encaminhasse as famílias para um alojamento. A única coisa que fizeram foi uma triagem e isso não dá moradia para ninguém. Nosso destino foi ir paras as ruas. São 94 famílias, homens e mulheres, crianças e idosos”, desabafa.

“Que país é esse? Que capital é essa que tem tanto recurso e esses recursos não são direcionados para prover a necessidade dos mais pobres? A única coisa que queremos é uma casa, uma vida digna, para criar nossos filhos, para proteger nossos idosos. Porque impostos nós pagamos, afinal muitos de nós aqui ainda têm emprego, o problema é que somos de baixa renda. Nosso inimigo é a especulação imobiliária, ou bem pagamos a comida e garantimos a ida de nossas crianças à escola e a sobrevivência dos nossos idosos, ou pagamos o selvagem aluguel paulistano”, explica Carmem.

 

Ela acrescenta que por diversas vezes tentaram entrar em acordo com a Prefeitura de São Paulo, mas a única coisa que ouvem é que a Prefeitura não tem dinheiro e que não tem para onde mandar. “O que nos oferecem é um albergue e ninguém deveria ser encaminhado para albergues. Somos trabalhadores, somos seres humanos e é triste saber que por trás dessa exploração e agressão há outro ser humano. Queremos um lar, mas pelo descaso do governo ainda temos uma longa luta pela frente.”

Nossa reportagem foi até o prédio desocupado e conversou com um dos zeladores do imóvel, que não quis ser identificado. Segundo ele, os donos já tentaram por diversas vezes vender o imóvel, mas o prédio está em processo de desapropriação para ser reformado e transformado em residência. “O problema é que este processo rola na Prefeitura há mais ou menos cinco anos sem avanço ou solução. Por isso invadiram o imóvel”, informou.

 

Falta de compromisso

 

Maria Planalto, que assim como a Frente de Luta por Moradia, luta pelo acesso à moradia há 25 anos, disse à nossa reportagem que toda essa agonia poderia ter sido evitada se governo e prefeitura cumprissem os acordos firmados. “Em 2010, foi realizada uma reunião, na qual ficou acordado o atendimento, via verba emergencial, parceria e financiamento, de todas as famílias despejadas, das quais estas 94 aqui acampadas fazem parte. E nós até aqui não vimos e nem recebemos notícia de nenhuma destas ações”, lembrou a liderança.

 

Maria destaca que atualmente existem no centro expandido de São Paulo 450 mil imóveis desabitados, entre casarões, prédios, galpões e fábricas abandonadas. Segundo ela, “se realmente houvesse política pública com inclusão social, esse número resolveria a vida de grande parte dos cidadãos que hoje lutam por um teto”.

 

“Eles não estão nem aí para o trabalhador. O que há é um poder carrasco e rancoroso que defende os ricos, a especulação imobiliária. E esse gestor que está aí não conhece, ou pelo menos fecha os olhos, para as necessidades mais candentes do povo, para a nossa necessidade”, finaliza Maria.

 

Agressão

 

“Sofremos hoje uma espécie de genocídio”, desabafa Maria Planalto. E acrescenta, “somos separados, pobres de um lado e bem escondidos, e ricos longe dessa realidade. Isso é uma agressão aos que tentam sobreviver honestamente, nossos filhos estão na escola, muitos deles na faculdade, não merecem passar por isso”, desabafa.

De acordo com Carmem da Silva Ferreira, além do desrespeito as 94 famílias são abordadas várias vezes por dia pela polícia. “Eles nos abordam a cada hora, perguntam quantos somos, e depois passam essas informações para o governo. Durante a noite eles voltam. Ontem havia vários carros e motos. Ficam acelerando e cantando pneu. Isso é humilhante e amedronta a todos aqui. Esse não deve ser o papel de quem decidiu proteger a vida”, denunciou.

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=192464&id_secao=1

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