4/02/2012 12:00 am

Pinheirinho: a luta de um povo que é a luta de todo um país

Pinheirinho: a luta de um povo que é a luta de todo um país

 

Moradora do Pinheirinho há oito anos — desde o começo da ocupação — Rita de Cássia, de 32 anos, vivia com 7 filhos, 2 netos e o marido em uma casa de 6 cômodos que construiu com o seu trabalho de vendedora ambulante de balas e doces e com o do marido, que trabalha na Frente de Trabalho. Com a desocupação do Pinheirinho ela perdeu tudo: o esforço, o trabalho, os sonhos. Agora tem esperança e diz que vai seguir lutando por uma casa, um pedaço de chão.

Comovidas com histórias como esta, mais de cinco mil pessoas se reuniram, nesta quinta-feira (2), em São José dos Campos, no interior de São Paulo, para prestar solidariedade e exigir Justiça para os moradores da área — que já foi a maior ocupação urbana da América Latina. Partidos políticos, representações sindicais, organizações trabalhistas e de estudantes e movimentos sociais, sob diversas bandeiras da esquerda, uniram forças para somar à luta travada pelos moradores desalojados de suas casas no último dia 22.

O Ato Nacional de Solidariedade ao Pinheirinho foi chamado pela Assembleia dos Povos no Fórum Social Temático com o objetivo de denunciar a falta de política de moradias no país, além de mostrar a situação precária das famílias abrigadas em alojamentos da prefeitura. A concentração inicial foi realizada na Praça Afonso Pena, na região central da cidade e terminou em frente à prefeitura, em um percurso que durou a manhã toda e parte da tarde.

Emocionados, moradores davam entrevistas para TVs, portais de notícias, jornalistas independentes e contavam suas histórias para os militantes e pessoas interessadas em conhecer uma outra versão dos fatos. Mas eles têm medo. Rita concordou em conversar com a reportagem do Vermelho, mas pediu para não ter seu sobrenome divulgado: “a gente tem medo de eles seguirem a gente”.

 

As reclamações dos moradores eram diversas, mas em uma coisa eles eram unânimes: foram retirados de suas casas e agora estão em situações precárias, sofrendo constrangimentos e humilhações: “as pessoas estavam cada um na sua casinha, trabalhando. Simplesmente a polícia entrou no acampamento, tirou o pessoal só com a roupa do corpo e depois passou os tratores e derrubou tudo” , como detalhou Valdir Martins, o Marrom, líder da comunidade.

 

A luta pela moradia tem apoio massivo do MST. O líder regional Sem Terra, Rogério Eduardo, enfatizou que, “a partir do momento que aconteceu este massacre”, o MST, que luta por uma transformação social, “não só pelo movimento da terra, mas pela moradia” também, resolveu se unir aos moradores do Pinheirinho “para acabar com este governo capitalista, que vem acabando com os trabalhadores do campo e com os trabalhadores da cidade, na questão da moradia”.

 

Os moradores receberam também o apoio da Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conan). A entidade manifestou solidariedade às famílias “que de forma covarde e sem qualquer respeito por parte dos policiais a serviço do Governo do Estado e do prefeito Eduardo Cury foram arrancadas de seus lares. (…) Repudiamos esse governo que destrói laços, desconstrói sonhos e tira a liberdade das pessoas”.

 

Justiça

 

As denúncias de violação dos direitos humanos são fartas. Na audiência realizada na quinta-feira (1º/2), na Assembleia Legislativa de São Paulo, o Defensor Público, Jairo Salvador pontuou uma série de irregularidades e violações da Justiça no caso: “o Pinheirinho é só mais um capítulo de extermínio da pobreza de uma cidade que quer se vender como perfeita, sem problemas sociais, em que mata a pobreza, extermina a pobreza”.

 

Ele menciona a decisão da Justiça Estadual, do juiz Sílvio Pinheiro, da 1ª Vara da Fazenda Pública, proibindo a demolição das casas. “A prefeitura entrou com uma ação demolitória, com base nas normas urbanas de ocupação do solo. A ação, no entanto, foi considerada improcedente, mas mesmo assim as casas foram demolidas às pressas”, ressaltou Salvador.

 

Um dos poucos deputados presente no evento, Ivan Valente (PSOL-SP), ressaltou que a questão tem que ser analisada pelo Conselho Nacional de Justiça. “Isso não é justiça para o povo brasileiro. É injustiça para o povo. E justiça para Naji Nahas, o megaespeculador corrupto”. Na terça-feira (7), o caso será levado para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. A intenção, segundo o deputado, é ampliar a repercussão do episódio.

 

Esse caso “é emblemático, é simbólico. (…) O governo de São Paulo, fez do Pinheirinho um grande laboratório da repressão, da criminalização dos movimentos sociais e da intimidação de futuros movimentos e isso precisa ser denunciado claramente para a sociedade brasileira”, enfatizou o deputado.

 

Segundo Marrom, os moradores também estão entrando com “representação na ONU e no Ministério Público Federal, com vários deputados, vários senadores. Estamos fazendo de tudo — principalmente junto com as forças dos movimentos sociais, sindicais, da Igreja — para dizer que basta: hoje é o Pinheirinho, amanhã pode ser qualquer lugar do Brasil”.

 

Vanessa Silva, da redação do Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=174869&id_secao=8

CONTATOS

facebook.com/observatorio

(98) 99999-9999

observatoriopoliticaspublicaslutasociais@yahoo.com.br