5/10/2009 12:00 am

Para Unesco, situação do professor é crítica

Para Unesco, situação do professor é crítica


Relatório aponta falhas na formação, que
enfatiza pouco a relação entre teoria e prática, e falta de valorização
profissional. Quase a metade dos professores tem pais sem nenhuma escolaridade
ou que chegaram apenas à 4ª série do ensino fundamental


Num dos mais completos relatos já feitos sobre a situação do professor
brasileiro, a Unesco aponta que a situação é bastante crítica, e não apenas por
causa dos baixos salários. Além de a carreira, que emprega 2,8 milhões de
pessoas no país, não ser atrativa para os jovens de maior nível socioeconômico,
os alunos que ingressam em cursos de pedagogia e licenciaturas recebem uma
formação que enfatiza pouco a relação entre teoria e prática. Eles se formam
principalmente em instituições particulares, à noite, e poucos passam por
atividades de estágio bem coordenadas antes de começarem a dar aulas. Para
mostrar esse quadro complexo, as pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas
Bernadette Gatti e Elba Barretto usaram várias bases de dados sobre professores
no país.

 

Escolaridade
Do questionário que é aplicado aos alunos que fazem o Enade (exame que avalia a
educação superior), elas destacaram, entre outros fatos, que os universitários
de cursos de licenciatura e pedagogia vêm de famílias mais pobres, com menor
bagagem cultural. Quase metade (50,6%) tem pais sem nenhuma escolaridade ou que
chegaram apenas à 4ª série do ensino  fundamental. Entre alunos dos cursos
de medicina, por exemplo, esse percentual é de 7,1%. Na carreira de enfermagem,
a proporção é de 37,7%. “São jovens em ascensão social, e é preciso
aproveitar o potencial deles, que buscam na universidade enriquecer sua bagagem
sociocultural. Para isso, no entanto, é fundamental mexer nas grades
curriculares dos cursos que formam professores, que deixam muito a
desejar”, diz Bernadette Gatti.

Para chegar a essa conclusão, o
relatório detalha uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, feita com apoio da
Fundação Victor Civita, que analisou a estrutura curricular e as ementas de 165
cursos de pedagogia e licenciaturas. Num trecho do relatório, as autoras
destacam que as “ementas dos cursos frequentemente expressam preocupação
com o porquê ensinar, o que pode contribuir para evitar que conteúdos se
transformem em meros receituários, mas só de forma muito incipiente registram o
quê e como ensinar.” A proporção de horas dedicadas a formação específica,
por exemplo, não passa de 30% nesses cursos. “A formação é precária, com
pouca ênfase na relação entre teoria e prática. E não há acompanhamento 
adequado dos estágios. Fazer isso de maneira benfeita tem um custo alto, pois
envolve um professor designado para acompanhar cada estudante em seu projeto.
Muitas faculdades privadas não estão dispostas a arcar com isso”, critica
a pesquisadora.

 

Salário 
Célio da Cunha,
assessor especial da Unesco, afirma que o relatório deixa muito evidente que a
questão salarial é importante, mas que a valorização do trabalho do professor
não se restringe a isso. “Salários, apenas, não operam milagres. De que
adianta aumentar os rendimentos do professor se ele continuar a ser formado da
mesma maneira?”, indaga Cunha. Ele afirma que a dificuldade de valorizar a
carreira do magistério não é um desafio apenas do Brasil. No entanto, na
comparação com países desenvolvidos, os rendimentos dos professores brasileiros
ficam muito abaixo de seus colegas europeus, por exemplo. “E o que agrava
mais a situação dos professores brasileiros e de outros países menos
desenvolvidos é que, na Europa, os serviços públicos de saúde e educação são de
alta qualidade, o que não acontece no Brasil, onde parte da renda acaba sendo
destinada a suprir essa deficiência.” 

Fonte: Folha de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0410200904.htm

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