3/01/2011 12:00 am

O ÓCIO CRIATIVO E O TEMPO LIVRE, UMA CRÍTICA A DE MASI

O ÓCIO CRIATIVO E O TEMPO LIVRE, UMA CRÍTICA A DE MASI

Para De Masi (2000, p. 234) a sociedade tende para o aumento do tempo livre e para a execução de atividades intelectuais e criativas. O tema, de capital importância para a classe trabalhadora, remete à luta dos movimentos sociais pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários.

Por Suzana de Souza Guitierrez*

O desenvolvimento da tecnologia não está servindo para multiplicar o tempo do ócio e os espaços de liberdade, mas está multiplicando a falta de emprego e semeando o medo. É universal o pânico ante a possibilidade de receber a carta que lamenta comunicar-lhe que estamos obrigados a prescindir de seus serviços em razão da nova política de gastos, ou devido à inadiável reestruturação da empresa, ou apenas porque sim, já que nenhum eufemismo abranda o fuzilamento. Qualquer um pode cair, a qualquer hora e em qualquer lugar. Qualquer um pode se transformar, de um dia para o outro, num velho de quarenta anos (Galeano, 2001, p. 170)

O ócio criativo é aquela trabalheira mental que acontece até quando estamos fisicamente parados, ou mesmo quando dormimos à noite. Ociar não significa não pensar. Significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelo cronômetro, não obedecer aos percursos da racionalidade e todas aquelas coisas que Ford e Taylor tinham inventado para bitolar o trabalho executivo e torná-lo eficiente. 

Segundo o autor estamos numa época que corresponde a uma transição que inclui a passagem de atividades físicas para atividades intelectuais, a passagem de atividades intelectuais repetitivas para atividades intelectuais criativas, a passagem do trabalho labuta para o ócio criativo. Um ócio criativo que aproxima o trabalho, o estudo e o jogo e que é característico da sociedade pós-industrial.

De Masi (2000) aponta a superação do trabalho repetitivo da linha de montagem fordista, agora quase que inteiramente delegado às máquinas. Celebra a libertação do tédio que estas atividades automáticas, onde o cérebro tinha participação quase nula, causavam aos trabalhadores. Ressalva, porém, que os postos de trabalho que são abolidos pelo progresso tecnológico não vão ser compensados pela criação de outros postos de trabalho. E que devemos buscar alternativas para sobreviver em uma sociedade sem empregos, embora com riqueza que daria para todos. Critica a visão de alguns políticos que falam da criação de empregos via investimentos, que ele acredita ser uma esperança irreal, dado que as empresas vêm diminuindo os investimentos, mesmo recebendo incentivos e outros privilégios. O mercado financeiro é o destino dos investimentos.

No final da década de 60, Marcuse (1982) já sinaliza que nas novas formas de produção o aparato técnico se torna o próprio processo de produção dispensando a ação humana e rompendo os laços que prendem o trabalhador à máquina.
A automatização completa na esfera da necessidade abriria a dimensão do tempo livre como aquela em que a existência privada e social do homem constituiria ela própria. Isso seria a transcendência histórica rumo a uma nova civilização. (Marcuse, 1982, p. 53)
Acrescenta que esta tendência esbarra na oposição dos movimentos dos trabalhadores que reagem à automatização capitalista que os deixa sem emprego e sem meios de sobrevivência. Marcuse escreve em época anterior a derrocada do socialismo real soviético, numa época em que a Guerra Fria trazia um certo equilíbrio, nem que fosse baseado na competição leste-oeste. Hoje, a alternativa capitalista hegemônica destrói uma a uma as conquistas dos trabalhadores duramente extraídas do Estado de Bem Estar Social e o desenvolvimento não se traduz em tempo livre, mas sim em desemprego.

De Masi (2000) credita à indústria uma supervalorização do trabalho que fez com que este assumisse um status de dominância na vida humana em detrimento da família, da comunidade, do lazer e de outros valores. Em parte concordo, mas acrescentaria que esta cultura foi criada pelo modo de produção capitalista a partir da dominação pela fome e a necessidade do início da revolução industrial. Uma cultura que ainda predomina nos dias de hoje com estes e outros condicionantes e, aí concordando com De Masi, perpassa as camadas sociais as quais se destina e influencia outras camadas que não teriam esta necessidade.

Da intersecção entre estudo, trabalho e jogo , o autor aponta como sendo a mais perfeita e adequada a posição onde estes três itens se sobrepõem.
Os valores emergentes na nova sociedade incluem a globalização como contexto.
São globalizados os meios de comunicação de massa, a ciência, o dinheiro, a cultura. […] A vida inteira é globalizada: o mundo inteiro escuta as mesmas canções, assiste aos mesmos filmes e tende aos mesmos consumos. A cadeia McDonald’s vende 15 milhões de hambúrgueres por dia, todos iguais, nas suas 16 mil lanchonetes espalhadas por oitenta e três países. (De Masi, 2000, p. 141).

Uma globalização que homogeneiza a cultura global. De Masi concorda com este fato, mas não se alonga nos possíveis danos que isso causa a culturas diversas. Limita-se a apontar as tendências e a propor formas de ‘adequação’ aos novos rumos.
A economia global é guiada pelas multinacionais. Elas dispõem de sistemas informativos e de lobby muito poderosos, com os quais conseguem ocultar melhor sua política. E, além disso, a trama dos negócios que fazem é tão emaranhada, que muito pouca gente é capaz de descobrir o fio da meada. (De Masi, 2000, p. 143). Coloca a globalização como a forma contemporânea do impulso humano para explorar e colonizar.

Quanto às características emergentes nesta nova sociedade, o autor cita a intelectualização, o tempo livre, a emotividade em vez da razão, a desestruturação tempo-espaço e a qualidade de vida. Vê uma tendência de decréscimo do consumismo e da competitividade e uma progressiva delegação das tarefas de ‘baixo nível’ para imigrantes ou para o terceiro mundo.

Em meu entender o ócio criativo de De Masi, embora ele fale numa redistribuição de renda via redução da jornada de trabalho, destina-se apenas a muito poucos trabalhadores do primeiro mundo. Em primeiro lugar, porque parte de uma concessão das empresas que não altera as relações entre capital e trabalho. Em segundo lugar, toda a análise de De Masi sobre a produção e os serviços levam a crer, embora isso não seja dito, que as empresas necessitam ampliar os mercados para os novos produtos ‘imateriais’.

Ora, o consumo de serviços e produtos culturais depende, além da renda, do tempo livre, na seguinte lógica: não há quase nada material a produzir que não possa ser facilmente produzido quase que sem interferência de trabalho humano. Por outro lado, esgotam-se as possibilidades de ‘suscitar novas necessidades’ e criar mercados para produtos de curta duração. O sucateamento rápido e outras medidas que intensificam o consumo e fazem funcionar a máquina capitalista podem não estar sendo suficientes para dar conta da necessidade de aumento contínuo da produção. 

Os serviços liberaram tempo para a produção. Agora é a hora da produção liberar tempo para que as pessoas possam consumir os produtos ‘temporais’ e fazer girar a roda do mercado. Penso que é neste sentido que De Masi propõe mudanças no funcionamento da produção. Não no sentido de subverter o sistema, mas no sentido de manter o sistema funcionando.

Mas de nada adianta: burgueses que se empanturram, domésticos mais numerosos que a classe produtiva, nações estrangeiras e bárbaras abarrotadas de mercadorias européias. Nada disso faz escoar as montanhas de produtos que se acumulam, maiores que as pirâmides do Egito: a produtividade dos operários europeus desafia qualquer consumo ou desperdício. Os industriais, aflitos, não sabem mais a quem apelar, não conseguem mais encontrar matérias-primas para satisfazer a paixão desordenada e depravada de seus operários pelo trabalho. (Lafargue, 2000, p. 167)

Lafargue aponta de forma irônica e certeira a lógica que move o capital, que no século XIX dominava e explorava pela fome e pela miséria e que hoje domina e explora pela cultura e pela ideologia.
Nesta perspectiva, o ócio criativo surge como um mercado em expansão ou um trabalho sublimado e incorporado, digno de mais uma revolução do capitalismo na busca de sua preservação.

À guisa de conclusão ou para quem fala De Masi

O ócio criativo me parece escrito no típico formato dos livros de auto-ajuda. Quase científico, utilizando referências de autores consagrados e de linhas teóricas diversas, nem sempre de uma forma que evidencie com correção o contexto das obras. Os textos apoiam-se em conceitos já presentes na literatura, mas com referências opacas e não identificadas.

No caso de uma leitura crítica como a proposta por um trabalho acadêmico tem a virtude de trazer à discussão as obras de Lafargue, de Russell e de Marx, para os que aprofundarem os temas. Desconheço as outras obras de De Masi, então fica difícil avaliar se esta obra segue um padrão ou se o formato atende uma estratégia elaborada com uma determinada finalidade.

De certa forma julguei difícil não jogar o livro pela janela uma dúzia de vezes e destilar veneno puro no meu texto. Na realidade, o que mais me incomodou foi ter que concordar com o autor sobre certos fatos ou tendências. Não que eu concorde com a sua análise ou prognóstico, mas quanto ao fato em si não há como discordar. Por exemplo, o nosso progressivo status de ‘audiência’; a nossa posição de consumidores de conhecimentos; a nossa impotência diante da dominação que se vê gravada no coração das pessoas. Uma dominação mais eficiente que a fome.
O incremento da produção, das ciências, das técnicas revela necessidades e capacidades desconhecidas, faz refletir um espectro suntuoso de gostos, de criações, de diferenças; mas a reificação e a alienação fazem da humanidade uma plebe perplexa diante do espetáculo de seus próprios fetiches. A produtividade aumentada do trabalho libera tempo para a criatividade individual e coletiva, propícia a novas formas de convívio e lucidez; mas a medida ‘miserável’ de qualquer riqueza e de qualquer troca pelo tempo de trabalho abstrato transforma a incrível liberação potencial em desemprego, em exclusões, em miséria física e moral. (Bensaïde, 1999, p. 99).

Qual a saída? Bensaïd (1999) aponta a saída de Marx que envolve uma redefinição dos critérios do progresso, a consideração de critérios que priorizem o enriquecimento do indivíduo e da espécie, que suprimam o trabalho alienado e que valorizem as relações entre as pessoas.

De Masi não aponta saídas, apenas descarta alternativas, entre outras: o socialismo porque não sabe produzir, o capitalismo por não ser capaz de distribuir o que produz. Acena de leve com o ‘modelo grego’, o que por si só já é preocupante. A sua proposta de redução da jornada de trabalho é mais técnica que política, não altera o funcionamento do sistema produtivo na sua essência e não vem acompanhada de uma teoria consistente que lhe dê sustentação.

Basta analisar a maioria dos textos de De Masi, citados anteriormente para ter claro que seu discurso e análise correspondem às sociedades ‘avançadas’. A elas se destina o ócio criativo. Uma possibilidade que De Masi visa ampliar para mais trabalhadores pela redução da jornada de trabalho, ficando a produção e os serviços de nível mais baixo para os pobres e o terceiro mundo.

E, no meu entender, De Masi fala para as empresas. A quase totalidade de seus exemplos inclui as empresas e as suas necessidades, chegando a considerar a dinâmica da sociedade pós-industrial como uma guerra entre empresas (DE MASI, 2000, p. 129). Alerta para o estrangulamento dos mercados de consumo, alerta para o ‘tempo livre’ como tempo para consumir que a empresa paga para receber de volta. Uma mensagem que vem vestida como proposta revolucionária e, para isso, De Masi chega a aproximar Lafargue de Taylor.

De Masi fala o que todos querem ouvir, fala de uma sociedade ideal onde jogo, trabalho e estudo se misturam. Usa as palavras de ordem dos discursos atuais como solidariedade, hospitalidade, qualidade de vida. E acena com a esperança que a riqueza e o desenvolvimento por ‘transbordamento’ possam acabar atingindo até as regiões mais pobres. Uma cantiga sedutora como as que eram ensinadas às crianças no século XIX, para que enfrentassem uma jornada de 12h de trabalho nas fábricas.

* Pós-Graduando em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

FONTE: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=144675&id_secao=8

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