22/11/2010 12:00 am

JOSEFH STIGLITZ: UMA GUERRA CAMBIAL NÃO TEM VENCEDORES

JOSEFH STIGLITZ: UMA GUERRA CAMBIAL NÃO TEM VENCEDORES

O economista Josefh Stiglitz é um dos mais destacados críticos da globalização neoliberal. No artigo que o Vermelho reproduz abaixo, ele dá a receita para superar a chamada guerra cambial e a crise financeira. Recomenda, “por exemplo, aumentar os salários” nos EUA e na China; substituir o dólar como moeda mundial; promover investimentos produtivos e ampliar o consumo; reduzir substancialmente os desequilíbrios globais através de uma efetiva cooperação entre as nações.

O texto foi escrito na véspera da reunião do G20, em Seul (11 e 12 de novembro) como uma advertência e indicação de um caminho. O resultado da cúpula, porém, foi uma patética e vazia declaração de boas intenções, em contraste com um intenso tiroteio nos bastidores entre os líderes das duas maiores potências (EUA e China). Temas polêmicos como o padrão monetário e a política monetária norte-americana foram escamoteados. A cooperação passou ao largo da reunião e, em vez de esmorecer, a guerra cambial tende a ser intensificada. O futuro parece ainda mais obscuro após o encontro de Seul.

Leia a íntegra do artigo: 

É fácil ver por que alguns políticos esperam que um câmbio favorável possa recolocar a economia dos EUA no caminho do crescimento. Em meio a crescentes temores de um estancamento à japonesa, as demais opções ou não são levadas em consideração ou o mais provável é que sejam ineficazes.

Por Joseph Stiglitz*

A paralisia política e o endividamento galopante atuam como freio de uma segunda rodada de estímulos eficazes e a política monetária não reanimou os investimentos. Todavia, debilitar o dólar para impulsionar as exportações é uma estratégia arriscada. Pode provocar uma maior volatilidade cambial e o protecionismo; e, o que é pior, induz a uma resposta dos competidores. Neste frágil entorno econômico mundial, os membros do G20, que se reúnem em Seul, sabem que uma guerra de divisas só resultará em perda para todo o mundo.

Afortunadamente, há alternativa. Seria muito mais eficaz uma cooperação mundial baseada em políticas de reformas estruturais que fomentem o crescimento, em estímulos econômicos e em mudanças institucionais de longo prazo no sistema monetário mundial.

Conhecemos os perigos de uma desvalorização porque já passamos por isto antes. Na década de 1930, a política de empobrecer o vizinho prolongou a Grande Depressão. Em tempos mais normais, os Estados Unidos talvez tivessem a capacidade de fazer com que outras moedas se apreciem frente ao dólar (ajudando, assim, a baratear as exportações norte-americanas) mantendo as taxas de juros baixas e ampliando a liquidez. Agora é diferente, pois outros países, sobretudo a China, indicaram que não vão segui-los neste jogo.

Os EUA devem pensar em outras vias. As lições da história não podem ser desprezadas. Há 40 anos medidas unilaterais tomadas pelos EUA levaram ao colapso do sistema de Bretton Woods e à adoção do regime de câmbio flutuante. O mundo se encontra neste momento a ponto de passar a outro regime, adotando um maior controle sobre o câmbio e os mercados fragmentados de capital. Isto não é o resultado de deliberações exaustivas sobre qual sistema seria o melhor para todos. É mais a consequência de que alguns países estão adotando medidas que acreditam favorecer os seus próprios interesses sem levar em conta os outros, que também fazem o que podem para se proteger.

A política monetária dos EUA foi responsável, em grande medida, pela década perdida da América Latina, porque a subida das taxas de juros, sem precedentes, provocou a crise da dívida externa no início dos anos 1980. Da mesma forma, a política monetária estadunidense foi responsável, em grande medida, pela bolha [imobiliária] cuja explosão deflagrou a recessão mundial.

Washington embarcou novamente em um comportamento que pode colocar em perigo a estabilidade mundial. O irônico no caso é que os Estados Unidos estão se beneficiando pouco da maré de liquidez que provocaram. Os juros baixos não acenderam o fogo dos investimentos em máquinas e equipamentos na recessão de 2001 e não é provável que logrem isto agora. Entretanto, essa política está tendo um efeito em outros países, visto que com o dinheiro barato todo mundo busca as melhores oportunidades de investimentos e as encontram nos mercados emergentes. Conhecemos os estragos que podem derivar desta política porque este dinheiro circula continuamente de um canto a outro.

As mudanças repentinas e de alto calado nos sistemas de câmbio podem ter efeitos devastadores, especialmente nos países em desenvolvimento, porque muitas empresas se veem obrigadas a decretar falência. Os países em desenvolvimento têm sido o motor do crescimento mundial e mudanças desta natureza podem destruir toda esperança de uma rápida recuperação global.

Enquanto para o mundo está claro o custo das desvalorizações competitivas, os benefícios provavelmente são ilusórios. A China faz bem ao sublinhar que o ajuste do seu regime de câmbio vai contribuir muito pouco para corrigir o déficit do comércio multilateral norte-americano (os EUA simplesmente importarão confecções e tecidos de outros países em desenvolvimento). De fato, o déficit comercial poderá se agravar em curto prazo, ainda que outros países ajustem suas taxas de câmbio, porque os Estados Unidos terão que pagar mais (em dólares) por suas importações. 

Na atualidade, cada país persegue seus próprios interesses. Os Estados Unidos estão preocupados com o desemprego. A China se preocupa com a possibilidade de que uma valorização expressiva de sua moeda cause transtornos econômicos no país (a menos que haja recuperação do crescimento global). Se seguirmos por esta via, as economias emergentes, ameaçadas por uma avalanche de capital, tenderão a se proteger mediante impostos, controles de capital, regulações e intervenções diretas (como ocorre cada vez mais). À medida que mais países recorram a intervenções para mitigar as consequências de uma expansão monetária desenfreada (nos EUA e, quem sabe, em outros países mais industrializados), os que conservam a fé em regimes cambiais determinados pelo mercado vão sentir uma pressão cada vez maior. Afinal, a noção de tipos de câmbio determinada pelo mercado parecerá tão arcaica como [os acordos fechados em] Bretton Woods. O resultado será um mercado financeiro mundial cada vez mais fragmentado, com o efeito adicional quase inevitável de uma recaída no protecionismo.

A resposta a esta situação de aparente estancamento é simples: recuperar o crescimento mundial e daí advirá de forma natural a apreciação [ou valorização] da moeda. Restabelecer o crescimento requer que todos os governos que tenham capacidade para aumentar a demanda agregada façam isto. Os EUA têm uma responsabilidade especial, tanto por sua culpa na generalização da crise mundial como por usa capacidade de pedir emprestado a taxas de juros baixas, uma vantagem derivada em parte de sua condição de emissor da moeda de reserva de fato. É chegado o momento dos EUA realizarem os investimentos de alta produtividade que necessitam.
Investir em coisas como ferrovias de alta velocidade e tecnologias verdes vão melhorar de fato o balanço norte-americano. Um maior crescimento geraria maior receita fiscal e reduziria a dívida pública em longo prazo. Medidas deste tipo não só ajudariam os EUA, mas também teriam magníficos efeitos positivos tanto em curto prazo (graças a um maior crescimento) como em longo prazo (graças às melhorias tecnológicas) para o resto do mundo.

Tanto os EUA como a China necessitam de mudanças estruturais, não só um reajuste nos regimes de câmbio. Inclusive em curto prazo, é muito o que podem fazer para contribuir com a demanda agregada global: aumentar os salários, por exemplo. Em ambos os países, a remuneração média por hora não acompanharam o ritmo de crescimento (na atualidade, a renda média dos norte-americanos é menor do que era em 1997!).

Os dois países necessitam de investimentos para se adaptar ao aquecimento global. Ambos precisam aumentar o gasto público em educação e saúde para os desfavorecidos. Ambos têm que encontrar fórmulas melhores de alocação do seu capital. Os mercados financeiros norte-americanos demonstraram uma notável incapacidade para canalizar as poupanças de forma produtiva. A China não pode continuar criando excedente de capacidade de produção. Necessita encontrar formas de reciclar suas gigantescas poupanças, por exemplo, em investimentos na urbanização dentro do próprio país, nos investimentos em países em desenvolvimento com excedente de mão de obra e em ajuda a outros países para fazer frente ao problema do aquecimento global.

Esta alternativa de baseia na cooperação (compromissos mútuos com o aumento da fiscalização, reformas estruturais e a correção dos desequilíbrios comerciais de todos os países, não só da China). Para alguns países, os ajustes do sistema de câmbio formarão parte da alternativa; para outros, é possível que não. Todavia, cada país determinará a melhor maneira de alcançar os objetivos acordados, levando em conta as consequencias indiretas, tanto negativas como positivas. 

Nesta concepção de cooperação será fundamental um novo sistema mundial de reservas ou uma universalização do dinheiro do FMI (os chamados Direitos Especiais de Saque, os DES). Com um sistema deste tipo, não mais será necessário que os países pobres tenham que imobilizar centenas de bilhões de dólares para se proteger da volatilidade global e este dinheiro se somaria à demanda agregada mundial.

É certo que, com este sistema, os Estados Unidos já não se beneficiariam do custo extraordinariamente baixo que deriva de ser o emissor da mais importante moeda de reserva mundial. O fato é que o sistema [monetário] atual é uma anomalia. O mundo se encontra em uma conjuntura crítica. O caminho seguido hoje em dia está marcado por uma instabilidade permanente e um crescimento anêmico. O caminho da cooperação é o melhor para todos. É, de fato, a única maneira de lograr reduções importantes nos desequilíbrios globais e devolver ao mundo a perspectiva de um sólido crescimento. 

*Joseph Stiglitz é economista norte-americano, Prêmio Nobel de Economia em 2001.
Tradução: Umberto Martins

FONTE: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=141983&id_secao=2

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